Sorocaba acolhe dezenas por dia, mas segue entre as campeãs de pessoas em situação de rua em SP
- 19/01/2026
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Sorocaba acolheu 61 pessoas em três dias, mas soma até 945 em situação de rua, segundo o G1. Discurso oficial contrasta com a realidade.
Matéria por:
Jornalista Roberto Neander - “Reportagem com a autoridade de quem já esteve na linha de frente.”
Sorocaba vive um paradoxo social que já não cabe mais em vídeos curtos, discursos otimistas ou postagens institucionais. Entre sexta-feira (16) e domingo (18), a Prefeitura divulgou três matérias consecutivas exaltando os atendimentos do programa HumanizAção, somando 151 abordagens e 61 pessoas acolhidas no Serviço de Obras Sociais (SOS).
Os números oficiais são os seguintes:
Sexta-feira (16): 54 atendimentos ¦ 18 acolhimentos
Sábado (17): 39 atendimentos ¦ 15 acolhimentos
Domingo (18): 58 atendimentos ¦ 28 acolhimentos
No total, apenas 40% das pessoas abordadas aceitaram acolhimento, dado que por si só já expõe a complexidade do problema social enfrentado pela cidade.
Enquanto a Prefeitura apresenta esse balanço pontual, a realidade estrutural veio à tona nareportagem do G1/TV TEM, publicada em 17 de janeiro de 2026,apontando Sorocaba como a 9ª cidade com maior número de pessoas em situação de rua no Estado de São Paulo, com 945 pessoas cadastradas, segundo levantamento nacional baseado no Cadastro Único do Governo Federal.
A divergência é evidente. De um lado, o município afirma trabalhar com um número estimado de 360 pessoas, adotando critérios próprios. Do outro, umlevantamento nacional revela quase três vezes mais pessoas vivendo nas ruas.
É nesse ponto que o contraste se torna impossível de ignorar.
Do TikTok à calçada fria
Durante a gestão anterior, o então prefeito, hoje afastado, ganhou notoriedade nacional como“prefeito TikToker”, publicando vídeos convidativos, com linguagem informal,chamando pessoas de outras cidades para “vir morar em Sorocaba”, vendendo uma cidade próspera, organizada e acolhedora.
A ironia é cruel:
Quanto mais Sorocaba era promovida nas redes sociais, mais as calçadas se tornavam moradia permanente para centenas de pessoas.
A reportagem do G1 humaniza esse drama ao contar a história de Antônio Marcos Aparecido de Oliveira, de 55 anos, que passou quase seis anos vivendo nas ruas. O SOS, segundo a própria entidade, dispõe de 180 vagas, com média diária de 160 atendimentos, funcionando como casa de passagem, não como solução definitiva.
Ou seja:
✔ há acolhimento,
✔ há esforço operacional,
✖ mas não há ruptura do ciclo da exclusão social.
Nova gestão, velho desafio
A atual gestão herdou um problema estrutural que não se resolve com releases diários nem com estatísticas isoladas. O HumanizAção cumpre seu papel emergencial, mas os dados revelam que acolher dezenas por dia não reduz um contingente de centenas vivendo nas ruas.
O que se vê nas ruas de Sorocaba é o reflexo de anos de políticas baseadas mais em imagem do que em planejamento social de longo prazo.
A cidade que foi vendida como “terra das oportunidades” hoje aparece nos rankings estaduais da vulnerabilidade social.
E a pergunta que fica é direta, incômoda e necessária:
Quantos vídeos otimistas são necessários para esconder quase mil pessoas sem teto?
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Por: Roberto Neander - Reportagens policiais com a autoridade de quem já esteve na linha de frente.
Jornalista, ex-policial militar e ex-integrante da ROTA - Neander é o único repórter do mundo a ter servido na Polícia Militar do Estado de São Paulo e atuado na ROTA, ostentando o braçal da unidade de elite, no combate ao crime organizado.
































